Blog · MemóriasComo os videogames transformaram minha vida — e por que, no fundo, continuo sendo o mesmo garoto curioso em frente à televisão.
Há histórias que começam com uma grande oportunidade. A minha começou com um videogame.
Quando olho para trás, percebo que praticamente tudo o que construí na tecnologia tem alguma ligação com aqueles momentos em frente à televisão, segurando um controle de Atari, tentando passar de fase ou bater o próprio recorde.
Os videogames me ensinaram muito mais do que diversão. Eles desenvolveram meu raciocínio lógico, despertaram minha curiosidade, criaram amizades que duram até hoje e, de certa forma, definiram a profissão que escolhi seguir.
Minha paixão por tecnologia começou ainda na infância, por volta de 1982. Meu primeiro videogame foi um Atari.
Quem viveu essa época sabe que os jogos eram extremamente simples quando comparados aos de hoje, mas tinham uma dificuldade enorme. Não existiam tutoriais, internet ou vídeos ensinando como jogar. Era você, o controle e a vontade de descobrir sozinho.
Eu gostava desse desafio. Passava horas tentando superar minhas próprias marcas.
Consegui chegar a um milhão de pontos em jogos como Pac-Man, Missile Command e H.E.R.O., algo que fazia o contador “virar” e iniciava um novo ciclo do jogo. No Enduro, lembro de chegar por volta da fase 26 ou 27 — um feito bastante difícil para aquela época.
No River Raid, como muitos vão lembrar, o grande desafio nem era destruir os inimigos, mas conseguir combustível suficiente para continuar voando. Também havia um jogo de aventura com um dragão que, quando criança, chegava até a dar um certo medo.
Hoje parece engraçado lembrar disso. Naquela época, cada cartucho era uma nova aventura.
Os videogames também me ensinaram algo que levo para a vida até hoje: compartilhar. Era comum trocar cartuchos entre amigos. O Luciano sempre emprestava alguns jogos. O Nilson, que chamávamos de Nelsinho, tinha uma coleção enorme.
Passávamos horas descobrindo fases, segredos e tentando zerar tudo o que aparecia pela frente. Sem perceber, além dos jogos, estávamos construindo amizades.
Em 1996 consegui comprar meu primeiro computador. Foi uma conquista enorme. Comecei jogando Warcraft e passei muitas horas explorando aquele universo.
Mas foi em 1998 que aconteceu algo que marcou minha vida: conheci o StarCraft. Na época, um amigo chamado Akira tinha uma banca no centro de Varginha e conseguiu uma cópia do jogo logo após o lançamento. Ele me apresentou aquele universo e, desde a primeira partida, fiquei completamente apaixonado.
Escolhi jogar com os Protoss. Treinei bastante. Aprendi estratégias. Estudava cada detalhe do jogo.
Naquela época StarCraft era muito mais do que diversão — era pensar vários minutos à frente do adversário.
O Akira era considerado um dos melhores jogadores da cidade. Um dia resolvemos disputar uma melhor de três. Ganhei a primeira partida. Ele venceu a segunda.
Na terceira, ele tentou um rush logo no início — uma estratégia de ataque rápido para surpreender o adversário antes que ele desenvolva a base. Consegui defender. Assim que estabilizei minha economia, fiz exatamente aquilo que mais prejudica um jogador de StarCraft: ataquei diretamente seus trabalhadores, responsáveis pela mineração de recursos.
Sem economia, nenhum exército sobrevive. Acabei vencendo aquela partida. Mais tarde descobri que fui o único jogador de Varginha que conseguiu derrotá-lo em um confronto direto.
Mas a maior vitória daquele dia não foi ganhar a partida. Foi ganhar um amigo.
Nossa amizade continua até hoje, mesmo com ele morando no Japão há muitos anos. A amizade realmente não conhece fronteiras.

Era uma comunidade extremamente competitiva, mas também muito unida. Foi ali que conheci pessoas que fazem parte da minha vida até hoje.
O Jefferson tinha uns 14 anos quando nos conhecemos — extremamente inteligente, apaixonado por tecnologia e muito dedicado aos jogos. Nossa amizade atravessou décadas; hoje ele trabalha como motorista executivo, e seguimos amigos.
Outro grande amigo é o Hugo, que também conheci muito jovem por causa do StarCraft. Hoje é pai de dois filhos e, curiosamente, dividimos outra paixão: a corrida de rua. Um simples jogo aproximou pessoas que continuam presentes na minha vida quase trinta anos depois.



Depois vieram outros grandes jogos. Passei alguns anos no Lineage e mais tarde mergulhei no World of Warcraft por cerca de dois anos. Hoje continuo jogando, mas de forma bem mais tranquila: há uns cinco anos jogo diariamente um RPG de celular chamado Crush Them All. Faço minhas missões, converso um pouco com o pessoal e sigo o dia. É um momento de lazer.
Com o tempo, minha paixão pelos jogos evoluiu naturalmente para outra área: criar tecnologia. Em 2017 conheci o Jost Dayan, outro apaixonado por inovação. Junto com ele e com o Breno desenvolvemos um videogame retrô utilizando um Raspberry Pi.
O projeto foi apresentado no Innova Unis. Conquistamos o primeiro lugar na etapa realizada em Varginha e, como prêmio, representamos o Brasil em Cochabamba, na Bolívia. Apresentar um projeto brasileiro em outro país já seria especial. Voltar para casa trazendo novamente o primeiro lugar foi algo que jamais vou esquecer.



Nos anos seguintes continuamos inovando. Criamos novas versões do projeto do videogame. Desenvolvemos o iBack, uma câmera híbrida baseada em uma câmera analógica que registrava imagens digitalmente. Também apresentei o IP Backup, um sistema inteligente de backup em blocos que continua sendo utilizado até hoje na minha empresa.
Cada projeto reforçava uma certeza: aquele garoto que gostava de videogames estava apenas encontrando novas formas de brincar.
Trabalho com tecnologia há quase três décadas. Passei por redes, servidores, hospedagem, backup, segurança da informação, infraestrutura e inúmeros projetos. Sempre gostei muito do que faço. Mas fazia bastante tempo que eu não sentia aquela empolgação de descobrir algo realmente novo.
Até conhecer a Inteligência Artificial. Foi como voltar para 1998 e instalar StarCraft pela primeira vez.
A sensação é muito parecida. Agora, porém, não preciso apenas imaginar uma ideia — posso construí-la. Se penso em um sistema, descrevo para a IA. Se imagino um aplicativo, começo a desenvolvê-lo imediatamente. Se quero criar um jogo, basta explicar as mecânicas e evoluir o projeto.
Recentemente recriei um jogo inspirado no clássico H.E.R.O., do Atari. Ainda estou refinando alguns detalhes antes de publicá-lo, mas a experiência foi incrível. Percebi que hoje qualquer pessoa com criatividade consegue transformar uma ideia em realidade. E isso é revolucionário.
Muita coisa mudou. Os cartuchos viraram downloads. Os disquetes desapareceram. A internet substituiu as revistas de videogame. Agora temos Inteligência Artificial escrevendo código, criando imagens e ajudando a desenvolver praticamente qualquer projeto. Mas uma coisa continua exatamente igual: a curiosidade.

Ainda sou aquele garoto que queria descobrir o que existia na próxima fase. Só mudaram as ferramentas. Talvez essa seja a maior lição que os videogames deixaram na minha vida: eles nunca foram apenas entretenimento. Ensinaram estratégia, persistência, criatividade, raciocínio lógico e trabalho em equipe.
E, principalmente, mostraram que toda grande conquista começa com uma simples curiosidade. Se hoje trabalho com tecnologia, desenvolvo soluções para empresas, lidero equipes e me entusiasmo tanto com Inteligência Artificial, é porque um dia um menino ligou um Atari sem imaginar que aquele momento mudaria completamente o rumo da sua vida.
Acho que a próxima fase ainda está só começando.