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Insert coin · 1982 → 2026

Do Atari à Inteligência Artificial

Como os videogames transformaram minha vida — e por que, no fundo, continuo sendo o mesmo garoto curioso em frente à televisão.

Crônica pessoal◆ 12 min de leitura▸ Press start

Há histórias que começam com uma grande oportunidade. A minha começou com um videogame.

Quando olho para trás, percebo que praticamente tudo o que construí na tecnologia tem alguma ligação com aqueles momentos em frente à televisão, segurando um controle de Atari, tentando passar de fase ou bater o próprio recorde.

Os videogames me ensinaram muito mais do que diversão. Eles desenvolveram meu raciocínio lógico, despertaram minha curiosidade, criaram amizades que duram até hoje e, de certa forma, definiram a profissão que escolhi seguir.

Level 01 · 1982

Os primeiros desafios

Minha paixão por tecnologia começou ainda na infância, por volta de 1982. Meu primeiro videogame foi um Atari.

Quem viveu essa época sabe que os jogos eram extremamente simples quando comparados aos de hoje, mas tinham uma dificuldade enorme. Não existiam tutoriais, internet ou vídeos ensinando como jogar. Era você, o controle e a vontade de descobrir sozinho.

Eu gostava desse desafio. Passava horas tentando superar minhas próprias marcas.

◆ High scores · Recordes de infânciaATARI 2600
PAC-MAN1.000.000contador virou ↻
MISSILE COMMAND1.000.000
H.E.R.O.1.000.000
ENDUROFASE 26–27
RIVER RAIDCOMBUSTÍVEL: SOBREVIVER

Consegui chegar a um milhão de pontos em jogos como Pac-Man, Missile Command e H.E.R.O., algo que fazia o contador “virar” e iniciava um novo ciclo do jogo. No Enduro, lembro de chegar por volta da fase 26 ou 27 — um feito bastante difícil para aquela época.

No River Raid, como muitos vão lembrar, o grande desafio nem era destruir os inimigos, mas conseguir combustível suficiente para continuar voando. Também havia um jogo de aventura com um dragão que, quando criança, chegava até a dar um certo medo.

Hoje parece engraçado lembrar disso. Naquela época, cada cartucho era uma nova aventura.

Player 2 join

As amizades começaram ali

Os videogames também me ensinaram algo que levo para a vida até hoje: compartilhar. Era comum trocar cartuchos entre amigos. O Luciano sempre emprestava alguns jogos. O Nilson, que chamávamos de Nelsinho, tinha uma coleção enorme.

Passávamos horas descobrindo fases, segredos e tentando zerar tudo o que aparecia pela frente. Sem perceber, além dos jogos, estávamos construindo amizades.

Level 02 · 1996 → 1998

O computador mudou tudo

Em 1996 consegui comprar meu primeiro computador. Foi uma conquista enorme. Comecei jogando Warcraft e passei muitas horas explorando aquele universo.

Mas foi em 1998 que aconteceu algo que marcou minha vida: conheci o StarCraft. Na época, um amigo chamado Akira tinha uma banca no centro de Varginha e conseguiu uma cópia do jogo logo após o lançamento. Ele me apresentou aquele universo e, desde a primeira partida, fiquei completamente apaixonado.

Escolhi jogar com os Protoss. Treinei bastante. Aprendi estratégias. Estudava cada detalhe do jogo.

Estratégia
Velocidade
Decisão
Antecipar

Naquela época StarCraft era muito mais do que diversão — era pensar vários minutos à frente do adversário.

Best of 3

A partida que virou amizade

O Akira era considerado um dos melhores jogadores da cidade. Um dia resolvemos disputar uma melhor de três. Ganhei a primeira partida. Ele venceu a segunda.

Na terceira, ele tentou um rush logo no início — uma estratégia de ataque rápido para surpreender o adversário antes que ele desenvolva a base. Consegui defender. Assim que estabilizei minha economia, fiz exatamente aquilo que mais prejudica um jogador de StarCraft: ataquei diretamente seus trabalhadores, responsáveis pela mineração de recursos.

Sem economia, nenhum exército sobrevive. Acabei vencendo aquela partida. Mais tarde descobri que fui o único jogador de Varginha que conseguiu derrotá-lo em um confronto direto.

Mas a maior vitória daquele dia não foi ganhar a partida. Foi ganhar um amigo.

Nossa amizade continua até hoje, mesmo com ele morando no Japão há muitos anos. A amizade realmente não conhece fronteiras.

Reencontro com o Akira em um jantar de sushi
Reencontro anos depois — de adversários no Battle.net a amigos à mesa. A rivalidade virou história para contar.
Battle.net

Scorpion ORB

S
Nick · Clã
Scorpion ORB
Criamos nosso próprio clã: o ORB. Na Battle.net, muita gente já conhecia o nome — era comum surgirem convites para 2×2 ou para formar equipes.

Era uma comunidade extremamente competitiva, mas também muito unida. Foi ali que conheci pessoas que fazem parte da minha vida até hoje.

Party · vida real

Amigos para a vida inteira

O Jefferson tinha uns 14 anos quando nos conhecemos — extremamente inteligente, apaixonado por tecnologia e muito dedicado aos jogos. Nossa amizade atravessou décadas; hoje ele trabalha como motorista executivo, e seguimos amigos.

Outro grande amigo é o Hugo, que também conheci muito jovem por causa do StarCraft. Hoje é pai de dois filhos e, curiosamente, dividimos outra paixão: a corrida de rua. Um simples jogo aproximou pessoas que continuam presentes na minha vida quase trinta anos depois.

Grupo de amigos reunido
Amigos no boliche
Trilha e mirante com os amigos
Quase trinta anos depois — encontros, boliche e trilhas. As mesmas pessoas, agora fora da tela.
Novos mapas

Outros mundos

Lineage · anosWorld of Warcraft · ~2 anosCrush Them All · diário

Depois vieram outros grandes jogos. Passei alguns anos no Lineage e mais tarde mergulhei no World of Warcraft por cerca de dois anos. Hoje continuo jogando, mas de forma bem mais tranquila: há uns cinco anos jogo diariamente um RPG de celular chamado Crush Them All. Faço minhas missões, converso um pouco com o pessoal e sigo o dia. É um momento de lazer.

Level 03 · 2016+

Quando passei a criar em vez de apenas jogar

Com o tempo, minha paixão pelos jogos evoluiu naturalmente para outra área: criar tecnologia. Em 2017 conheci o Jost Dayan, outro apaixonado por inovação. Junto com ele e com o Breno desenvolvemos um videogame retrô utilizando um Raspberry Pi.

O projeto foi apresentado no Innova Unis. Conquistamos o primeiro lugar na etapa realizada em Varginha e, como prêmio, representamos o Brasil em Cochabamba, na Bolívia. Apresentar um projeto brasileiro em outro país já seria especial. Voltar para casa trazendo novamente o primeiro lugar foi algo que jamais vou esquecer.

Equipe com medalhas segurando o troféu de 1º lugar
1º Lugar
A equipe premiada — medalhas no pescoço e o troféu na mão. Aquele garoto do Atari, agora construindo.
Estande do Mini Arcade no congresso em Cochabamba
Placa de 1º Lugar do Concurso Inova Unis 2016
Mini Arcade no estande internacional em Cochabamba · e a placa de 1º Lugar do Concurso Inova Unis.

Nos anos seguintes continuamos inovando. Criamos novas versões do projeto do videogame. Desenvolvemos o iBack, uma câmera híbrida baseada em uma câmera analógica que registrava imagens digitalmente. Também apresentei o IP Backup, um sistema inteligente de backup em blocos que continua sendo utilizado até hoje na minha empresa.

Cada projeto reforçava uma certeza: aquele garoto que gostava de videogames estava apenas encontrando novas formas de brincar.

Level 04 · 2026

A Inteligência Artificial despertou algo que estava adormecido

Trabalho com tecnologia há quase três décadas. Passei por redes, servidores, hospedagem, backup, segurança da informação, infraestrutura e inúmeros projetos. Sempre gostei muito do que faço. Mas fazia bastante tempo que eu não sentia aquela empolgação de descobrir algo realmente novo.

Até conhecer a Inteligência Artificial. Foi como voltar para 1998 e instalar StarCraft pela primeira vez.

A sensação é muito parecida. Agora, porém, não preciso apenas imaginar uma ideia — posso construí-la. Se penso em um sistema, descrevo para a IA. Se imagino um aplicativo, começo a desenvolvê-lo imediatamente. Se quero criar um jogo, basta explicar as mecânicas e evoluir o projeto.

Recentemente recriei um jogo inspirado no clássico H.E.R.O., do Atari. Ainda estou refinando alguns detalhes antes de publicá-lo, mas a experiência foi incrível. Percebi que hoje qualquer pessoa com criatividade consegue transformar uma ideia em realidade. E isso é revolucionário.

Continue?

No fundo, continuo sendo o mesmo garoto

Muita coisa mudou. Os cartuchos viraram downloads. Os disquetes desapareceram. A internet substituiu as revistas de videogame. Agora temos Inteligência Artificial escrevendo código, criando imagens e ajudando a desenvolver praticamente qualquer projeto. Mas uma coisa continua exatamente igual: a curiosidade.

Antes
Um joystick
Horas tentando entender como vencer um chefe.
VS
Hoje
São prompts
Horas imaginando projetos e vendo ideias saírem do papel em minutos.
◆ A jornada
1982
Atari
1996
1º PC · Warcraft
1998
StarCraft
2016
Innova · Bolívia
2020
Crush Them All
2026
Inteligência Artificial
Amigos reunidos em um evento formal
Os mesmos amigos de sempre — de terno, décadas depois. Só mudaram as ferramentas, nunca a turma.

Ainda sou aquele garoto que queria descobrir o que existia na próxima fase. Só mudaram as ferramentas. Talvez essa seja a maior lição que os videogames deixaram na minha vida: eles nunca foram apenas entretenimento. Ensinaram estratégia, persistência, criatividade, raciocínio lógico e trabalho em equipe.

E, principalmente, mostraram que toda grande conquista começa com uma simples curiosidade. Se hoje trabalho com tecnologia, desenvolvo soluções para empresas, lidero equipes e me entusiasmo tanto com Inteligência Artificial, é porque um dia um menino ligou um Atari sem imaginar que aquele momento mudaria completamente o rumo da sua vida.

E, sinceramente?

Acho que a próxima fase ainda está só começando.

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